Baba Yaga é o arquétipo da bruxa eslava presente no folclore russo e de todo Leste Europeu. Ela é um personagem muito mais profunda e intrincada do que as bruxas presentes nos mitos da Europa Ocidental, uma figura que inspira sentimentos contraditórios de medo, respeito e esperança.
Seu nome é um testemunho de sua identidade, assim como as muitas lendas que a cercam. O termo russo "Baba"
é geralmente considerado ofensivo entre os eslavos. Ele serve para
designar um tipo de mulher vingativa, que vive reclamando, que é
grosseiramente desgrenhada, uma verdadeira matrona que jamais casou ou
foi realmente amada ao longo de sua existência. Seria o equivalente a
uma solteirona, uma velha que é consumida pela inveja de todos que são
felizes e que vai se tornando cada vez mais amarga, perversa e cruel com
o passar dos anos. "Yaga" é mais frequentemente traduzido como
"bruxa", mas tem vários outros significados, como "feiticeira",
"malvada", "traiçoeira" e até "serpente", algumas vezes a palavra também
é usada para descrever uma situação de perigo, de medo ou até de fúria.
Em suas lendas, Baba Yaga vive nas profundezas de uma floresta selvagem
quase inacessível. A vegetação nesse lugar cresce de maneira incomum,
não natural. A copa das árvores impede a entrada dos raios de sol, os
troncos são tomados de fungos venenosos e mesmo os arbustos são cheios
de espinhos. Erva daninha e urtiga cresce selvagem. Os animais
silvestres evitam esse bosque maligno; onde haveria o canto de pássaros e
o zumbido de insetos, repousa apenas um silêncio sepulcral.
Em geral, existe um único caminho através dessa floresta erma, que se
oferece como uma rota segura. Essa estrada de terra conduz até uma
cabana arruinada de madeira. Trata-se de uma construção rústica, típica
dos camponeses, com ripas de madeira engendradas umas sobre as outras e
uma chaminé de tijolo sempre cuspindo fumaça. Através das janelas sujas
pode ser vista uma luz amarelada de candeeiro. As telhas no alto parecem
velhas, precisando de reparos, tudo é antigo e com uma aparência de
flagrante abandono.
Ao redor da casa há um indicativo do perigo que reside nessa morada. Uma cerca baixa feita de ossos circunda toda a propriedade, crânios humanos servem de vigias no alto da murada macabra e à noite, órbitas vazias brilham com uma luminosidade fosforescente. O portão de entrada é feito de costelas arqueadas pendendo em postes erguidos com ossos compridos e amarelados. A fechadura fica na boca de uma caveira em meio aos seus dentes perolados. A campainha é um chocalho com falanges penduradas numa corda de cabelos que quando agitada emite um ruído de tilintar.
Por alguma razão, a porta de entrada da cabana sempre está voltada para o
lado oposto da estrada. Quem deseja entrar precisa bater palmas ou
chamar a atenção do dono em seu interior.
Na realidade, Baba Yaga está sempre ciente quando há visitantes no seu
alpendre, ela decide se quer receber visitas. Segundo a lenda, se esse
for o caso, a cabana inteira estremece se erguendo artriticamente do
chão de terra. Imensas pernas de galinha que servem como base de
sustentação para o casebre se encarregam de posicioná-la corretamente,
fazendo com que a porta fique diante de quem planeja entrar. Se por
algum motivo o visitante se comportar de maneira desrespeitosa enquanto
chama pelo dono da casa, a bruxa simplesmente comanda os pés da cabana a
pisoteá-lo até esmagar cada osso de se corpo. Mas em geral, Baba Yaga
concede ao visitante o direito de adentrar o seu pavoroso covil.
Caramba eu ADOREI essa imagem! |
Algumas lendas mencionam que ela possui serviçais que protegem a sua
cabana . São eles um grande e feroz cão de caça, um gato preto de olhos
verdes extremamente malignos e uma espécie de árvore (alimentada com
sangue) que cresce na frente de sua casa e cujos galhos se estendem como
tentáculos. Essas criaturas são criadas magicamente e portanto dotadas
de inteligência, obedecendo com intensão assassina a todas as ordens de
sua mestra. Em algumas estórias eles cumprem tarefas como enviar
mensagens, seguir vítimas ou proteger a casa na ausência da bruxa. Há
ainda horríveis mãos decepadas de cadáveres que são enterradas na
entrada da casa da bruxa e que servem de guardiões contra invasores.
Quando alguém tenta forçar a entrada, essas mãos irrompem do chão para
agarrar pés e tornozelos detendo o avanço. Haveria ainda três cavaleiros
enigmáticos que cavalgam montarias fantasmagóricas e servem a bruxa em
todos os seus desígnios.
Baba Yaga raramente deixa a sua cabana, na maioria das vezes ela aguarda
pacientemente (como uma aranha no centro de sua teia) que alguma presa
venha até ela. Ela é capaz de disfarçar seu covil através de um
encantamento místico bastante real, fazendo com o aspecto sinistro dê
lugar a uma casa confortável e convidativa. A própria bruxa pode assumir
outras duas formas humanas mais agradáveis. A primeira é a de uma jovem
mulher de cabelos negros e pele muito branca que anda descalça sobre a
neve, protegida apenas por um manto de pele de raposa. Ela é escolhida
quando a bruxa deseja atrair um homem valendo-se de luxúria. A outra
forma é de uma mulher de meia idade, com roupas de camponesa e com o
olhar reconfortante de uma mãe cheia de candura. Quando usa esse aspecto
a casa exala um odor convidativo de comida recém preparada, de doces ou
guloseimas. É claro, essas duas formas escondem a verdadeira face da
bruxa que se diverte ao mostrar sua aparência decrépita antes de
capturar suas vítimas.
Nas raras ocasiões em que ela deixa a segurança de sua cabana, ela
utiliza uma espécie de pilão de madeira voador que a propele pelo ar,
enquanto ela manobra a coisa com uma vassoura de palha que lhe dá rumo.
Nas culturas eslavas, nada pode ser sinal de maior azar do que derrubar
um pilão de moagem no chão, pois dizia-se que tal coisa podia atrair a
raiva da Baba Yaga. Da mesma maneira, uma vassoura usada para varrer os
dois pés de uma pessoa ao mesmo tempo funcionava como uma espécie de
maldição, marcando o indivíduo para encontrar a terrível bruxa mais cedo
ou mais tarde.
[NOTA: Não sei se é daí que vem a superstição de que varrer os pés de uma pessoa faz com que ela não consiga encontrar alguém para casar.]
[NOTA: Não sei se é daí que vem a superstição de que varrer os pés de uma pessoa faz com que ela não consiga encontrar alguém para casar.]
Os visitantes que entram na cabana, por vontade própria ou de alguma
forma ludibriados, estão destinados a terminar no grande forno à lenha
da bruxa. Ao menos esse é o fim da maioria das pessoas. Esses infelizes
podem ser atacados de surpresa, simplesmente empurrados para dentro do
forno ou desacordados após ingerir alguma poção, se fartar com uma ceia
ou compartilhar da cama da bruxa (quando ela assume a forma da jovem
dadivosa).
Como em todas as fábulas, existem algumas regras que podem salvar a
pessoa de se tornar comida da feiticeira canibal. Oferecer-se para
rachar lenha, varrer a casa, moer grãos ou preparar alguma refeição pode
salvar o indivíduo da morte certa. Em algumas circunstâncias demonstrar
amabilidade, esperteza ou bravura pode resultar em um presente.
Infelizmente, fazer perguntas inconvenientes, agir com grosseria ou
desacatar a dona da casa é o caminho mais rápido para a perdição.
Presente em todo Leste Europeu e na Rússia, a Baba Yaga sempre foi (e
ainda é) uma entidade extremamente popular que domina o folclore local.
Mesmo durante os anos mais rígidos impostos pelo regime comunista da
União Soviética, os velhos mitos que cercavam a bruxa não foram
inteiramente esquecidos. Durante os pogrons impostos pelo regime, muitas
mulheres foram poupadas de serem desalojadas de suas cabanas, não pela
bondade repentina dos comissários sovietes, mas porque muitos temiam que
a cabana pudesse ser a morada da feiticeira. Da mesma maneira, relatos
de soldados que supostamente encontraram ou até se aventuraram na cabana
de Baba Yaga, se tornaram recorrentes tanto na Primeira quanto na
Segunda Guerra Mundial. O próprio Exército Vermelho espalhou um boato
para conter uma onda de deserções que Baba Yaga atacava soldados
solitários nas florestas. Diante da perspectiva de enfrentar a máquina
de guerra nazista ou a bruxa faminta, muitos soldados preferiam tentar a
sua sorte contra o exército alemão.
A representação da Baba Yaga em uma peça teatral russa em 1917 |
Apesar de ser uma criatura essencialmente maligna, Baba Yaga em alguns
momentos está disposta a ajudar quem a procura, especialmente se a
pessoa tiver sofrido uma injustiça ou perseguição. Não raramente ela
sabe de algum problema ou aflição e tenta a pessoa com uma solução para
seu dilema oferecendo algum talismã, amuleto ou feitiço miraculoso.
Confiar demasiadamente na velha, entretanto pode ser fatal, seu humor é
tão volúvel quanto o clima e de uma hora para outra, um aliado pode
acabar lançado no forno.
Poucas coisas são capazes de machucar Baba Yaga, ela é imune a armas e a
maioria dos ataques físicos simplesmente não resultam em nada em seu
corpo. Contudo, ferro frio (não moldado) é capaz de feri-la e talvez até
matá-la. Magias também podem ser um trunfo, embora ela conheça a
maioria dos abascantos que neutralizam ou anulam feitiços.
Como muitas figuras do folclore, Baba Yaga é mais uma força da natureza
do que um símbolo de morte, maldade e destruição. Ainda que seja uma
criatura de comportamento imprevisível ela é uma boa juíza de caráter e
quando percebe algum atributo ou virtude digna de nota em uma vítima em
potencial, prefere ouvir o que ela tem a dizer antes de simplesmente
devorá-la. Ainda que esteja sempre faminta, característica por si só
assustadora, os povos eslavos vêem nela uma fonte de sabedoria que não
pode ser preterida.mundotentacular.com
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